Colunista da Revista Época diz que evangélicos não são tolerantes com outros credos, você concorda?
Posted on 14 de nov. de 2011 and filed under Assuntos Polemicos , Igreja , Noticias
A coluna de Elaine Brum na Revista Época desta segunda (14/11) promete causar polêmica no meio cristão. Com o título “A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico” a jornalista, escritora e documentarista conta a conversa de uma pessoa atéia e um taxista evangélico, destacando a intolerância entre os crentes com outros credos ou o respeito a ausência dele.
A conversa, que segundo a jornalista aconteceu no início de uma noite Paulistana, vinha embalada até o assunto religião entrar em pauta, sendo assim transcrito na coluna:
- Sou! – ele respondeu, animado.
- De que igreja?
- Tenho ido na Novidade de Vida. Mas já fui na Bola de Neve.
- Da Novidade de Vida eu nunca tinha ouvido falar, mas já li matérias sobre a Bola de Neve. É bacana a Novidade de Vida?
- Tou gostando muito. A Bola de Neve também é bem legal. De vez em quando eu vou lá.
- Legal.
- De que religião você é?
- Eu não tenho religião. Sou ateia.
- Deus me livre! Vai lá na Bola de Neve.
- Não, eu não sou religiosa. Sou ateia.
- Deus me livre!
- Engraçado isso. Eu respeito a sua escolha, mas você não respeita a minha.
- (riso nervoso).
- Eu sou uma pessoa decente, honesta, trato as pessoas com respeito, trabalho duro e tento fazer a minha parte para o mundo ser um lugar melhor. Por que eu seria pior por não ter uma fé?
- Por que as boas ações não salvam.
- Não?
- Só Jesus salva. Se você não aceitar Jesus, não será salva.
- Mas eu não quero ser salva.
- Deus me livre!
- Eu não acredito em salvação. Acredito em viver cada dia da melhor forma possível.
- Acho que você é espírita.
- Não, já disse a você. Sou ateia.
- É que Jesus não te pegou ainda. Mas ele vai pegar.
- Olha, sinceramente, acho difícil que Jesus vá me pegar. Mas sabe o que eu acho curioso? Que eu não queira tirar a sua fé, mas você queira tirar a minha não fé. Eu não acho que você seja pior do que eu por ser evangélico, mas você parece achar que é melhor do que eu porque é evangélico. Não era Jesus que pregava a tolerância?
- É, talvez seja melhor a gente mudar de assunto...
O taxista estava confuso. A passageira era ateia, mas parecia do bem. Era tranquila, doce e divertida. Mas ele fora doutrinado para acreditar que um ateu é uma espécie de Satanás. Como resolver esse impasse? (Talvez ele tenha lembrado, naquele momento, que o pastor avisara que o diabo assumia formas muito sedutoras para roubar a alma dos crentes. Mas, como não dá para ler pensamentos, só é possível afirmar que o taxista parecia viver um embate interno: ele não conseguia se convencer de que a mulher que agora falava sobre o cartão do banco que tinha perdido era a personificação do mal.)
Chegaram ao destino depois de mais algumas conversas corriqueiras. Ao se despedir, ela agradeceu a corrida e desejou a ele um bom fim de semana e uma boa noite. Ele retribuiu. E então, não conseguiu conter-se:
- Veja se aparece lá na igreja! – gritou, quando ela abria a porta.
- Veja se vira ateu! – ela retribuiu, bem humorada, antes de fechá-la.
Ainda deu tempo de ouvir uma risada nervosa.
A parábola do taxista me faz pensar em como a vida dos ateus poderá ser dura num Brasil cada vez mais evangélico – ou cada vez mais neopentecostal, já que é esta a característica das igrejas evangélicas que mais crescem. O catolicismo – no mundo contemporâneo, bem sublinhado – mantém uma relação de tolerância com o ateísmo. Por várias razões. Entre elas, a de que é possível ser católico – e não praticante. O fato de você não frequentar a igreja nem pagar o dízimo não chama maior atenção no Brasil católico nem condena ninguém ao inferno. Outra razão importante é que o catolicismo está disseminado na cultura, entrelaçado a uma forma de ver o mundo que influencia inclusive os ateus. Ser ateu num país de maioria católica nunca ameaçou a convivência entre os vizinhos. Ou entre taxistas e passageiros.
Já com os evangélicos neopentecostais, caso das inúmeras igrejas que se multiplicam com nomes cada vez mais imaginativos pelas esquinas das grandes e das pequenas cidades, pelos sertões e pela floresta amazônica, o caso é diferente. E não faço aqui nenhum juízo de valor sobre a fé católica ou a dos neopentecostais. Cada um tem o direito de professar a fé que quiser – assim como a sua não fé. Meu interesse é tentar compreender como essa porção cada vez mais numerosa do país está mudando o modo de ver o mundo e o modo de se relacionar com a cultura. Está mudando a forma de ser brasileiro.
Por que os ateus são uma ameaça às novas denominações evangélicas? Porque as neopentecostais – e não falo aqui nenhuma novidade – são constituídas no modo capitalista. Regidas, portanto, pelas leis de mercado. Por isso, nessas novas igrejas, não há como ser um evangélico não praticante. É possível, como o taxista exemplifica muito bem, pular de uma para outra, como um consumidor diante de vitrines que tentam seduzi-lo a entrar na loja pelo brilho de suas ofertas. Essa dificuldade de “fidelizar um fiel”, ao gerir a igreja como um modelo de negócio, obriga as neopentecostais a uma disputa de mercado cada vez mais agressiva e também a buscar fatias ainda inexploradas. É preciso que os fiéis estejam dentro das igrejas – e elas estão sempre de portas abertas – para consumir um dos muitos produtos milagrosos ou para serem consumidos por doações em dinheiro ou em espécie. O templo é um shopping da fé, com as vantagens e as desvantagens que isso implica.
É também por essa razão que a Igreja Católica, que em períodos de sua longa história atraiu fiéis com ossos de santos e passes para o céu, vive hoje o dilema de ser ameaçada pela vulgaridade das relações capitalistas numa fé de mercado. Dilema que procura resolver de uma maneira bastante inteligente, ao manter a salvo a tradição que tem lhe garantido poder e influência há dois mil anos, mas ao mesmo tempo estimular sua versão de mercado, encarnada pelos carismáticos. Como uma espécie de vanguarda, que contém o avanço das tropas “inimigas” lá na frente sem comprometer a integridade do exército que se mantém mais atrás, padres pop star como Marcelo Rossi e movimentos como a Canção Nova têm sido estratégicos para reduzir a sangria de fiéis para as neopentecostais. Não fosse esse tipo de abordagem mais agressiva e possivelmente já existiria uma porção ainda maior de evangélicos no país.
Tudo indica que a parábola do taxista se tornará cada vez mais frequente nas ruas do Brasil – em novas e ferozes versões. Afinal, não há nada mais ameaçador para o mercado do que quem está fora do mercado por convicção. E quem está fora do mercado da fé? Os ateus. É possível convencer um católico, um espírita ou um umbandista a mudar de religião. Mas é bem mais difícil – quando não impossível – converter um ateu. Para quem não acredita na existência de Deus, qualquer produto religioso, seja ele material, como um travesseiro que cura doenças, ou subjetivo, como o conforto da vida eterna, não tem qualquer apelo. Seria como vender gelo para um esquimó.
Tenho muitos amigos ateus. E eles me contam que têm evitado se apresentar dessa maneira porque a reação é cada vez mais hostil. Por enquanto, a reação é como a do taxista: “Deus me livre!”. Mas percebem que o cerco se aperta e, a qualquer momento, temem que alguém possa empunhar um punhado de dentes de alho diante deles ou iniciar um exorcismo ali mesmo, no sinal fechado ou na padaria da esquina. Acuados, têm preferido declarar-se “agnósticos”. Com sorte, parte dos crentes pode ficar em dúvida e pensar que é alguma igreja nova.
Já conhecia a “Bola de Neve” (ou “Bola de Neve Church, para os íntimos”, como diz o seu site), mas nunca tinha ouvido falar da “Novidade de Vida”. Busquei o site da igreja na internet. Na página de abertura, me deparei com uma preleção intitulada: “O perigo da tolerância”. O texto fala sobre as famílias, afirma que Deus não é tolerante e incita os fiéis a não tolerar o que não venha de Deus. Tolerar “coisas erradas” é o mesmo que “criar demônios de estimação”. Entre as muitas frases exemplares, uma se destaca: “Hoje em dia, o mal da sociedade tem sido a Tolerância (em negrito e em maiúscula)”. Deus me livre!, um ateu talvez tenha vontade de dizer. Mas nem esse conforto lhe resta.
Ainda que o crescimento evangélico no Brasil venha sendo investigado tanto pela academia como pelo jornalismo, é pouco para a profundidade das mudanças que tem trazido à vida cotidiana do país. As transformações no modo de ser brasileiro talvez sejam maiores do que possa parecer à primeira vista. Talvez estejam alterando o “homem cordial” – não no sentido estrito conferido por Sérgio Buarque de Holanda, mas no sentido atribuído pelo senso comum.
Me arriscaria a dizer que a liberdade de credo – e, portanto, também de não credo – determinada pela Constituição está sendo solapada na prática do dia a dia. Não deixa de ser curioso que, no século XXI, ser ateu volte a ter um conteúdo revolucionário. Mas, depois que Sarah Sheeva, uma das filhas de Pepeu Gomes e Baby do Brasil, passou a pastorear mulheres virgens – ou com vontade de voltar a ser – em busca de príncipes encantados, na “Igreja Celular Internacional”, nada mais me surpreende.
Se Deus existe, que nos livre de sermos obrigados a acreditar nele. 
9 Comentários
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Esse taxista foi educado...eu já presenciei discussões ferrenhas entre irmãos de igrejas diferentes.
A maioria dos evangélicos é intolerante, como boa parte dos muçulmanos. Vivem só no mundo deles e não aceitam opiniões contrárias a crença. Não são todos, mas a maioria é assim. Eu que sou ateu, percebo isso. Se vivêssemos em uma República evangélica estaria preso ou ia para fogueira. braços.
Evangélico pensa que Deus é exclusividade deles. São intolerantes e se acham superiores, a igreja faz uma lavagem cerebral neles, e ninguém mais presta, só eles!
Religiosos, de qualquer credo, não são tolerantes com religiosos de outros credos ou credo algum. É o mais que óbvio. Se apossam da verdade absoluta, como podem aceitar os outros em erro? Não dá.
Suportam. Mas, se qualquer religião detiver o poder, se o país se transformar numa teocracia, pobre das minorias. Pobre de quem se opor ao poder deles. Pobre de toda arte e cultura. E pobre da liberdade.
Então, vamos torcer com empenho para que esse continue sendo um pais capaz de acolher todos os credos. E todas as opções sexuais e políticas e filosóficas. Um estado Laico. No mínimo.
Abraços
Acho que é um problema mais cultural que religioso, e que depende do indivíduo.
Tenho amigas evangélicas que convivem bem com todos os adeptos à outras religiões. Quando acontece algum problema, elas sempre têm uma palavra amiga, falando de Deus, isso é muito bom. Tenho outras conhecidas que atiram pedras nas pessoas, já me aconselharam a não me aproximar de amigos homossexuais, espíritas e pessoas divorciadas, pois eles estão perdidos e não serão salvos. Uma amiga que se converteu há poucos anos me disse que Jesus voltará e escolherá os cristãos, o resto arderá no fogo do inferno. Amo a Deus, mas não entendo bem de religião, mas isso me parece contrariar um dos ensinamentos de Jesus: não julgueis para não serdes julgado.
Não dá para generalizar, alguns são intolerantes, mas conheço muitos que não são. Muito bom o tema!
Nasci no Lar evangelico e não mim considero intoletante, converso com qualquer pessoa, tenho amiga não evangelica, porém acredito que as pessoas acham os evangelicos intoletante por serem SINCEROS DEMAIS! Concordo que só Deus sabe quem vai para o céu e para o inferno! Porém acreditamos na palavra de Deus A Bíblia afirma que:"ficarão fora os cães,os feiticeiros, os adúlteros,os homicidas, os idólatras, e todo aquele que ama e pratica a mentira"(Apocalipse 22:15). E Tb sabemos que SEM FÉ É IMPOSSIVEL AGRADAR A DEUS!! (Hebreus 11: 6). E a palavra de um servo do Senhor têm que ser SIM, SIM,NÃO, NÃO!! O problema é que têm muitos evangelicos que não sabem conversar, não têm jeito de falar por isso muitos são considerados como intolerante!
O evangelico infelismente e intolerante e muinto mal informado.Na minha opiniao estao fazendo muinta gente evitalos,para nao dizer outra coisa.
me expliquem uma coisa. Se a Igreja católica é tolerante com os ateus, por que cargas d'agua ela iria anunciar o Reino de Deus; e por que padres e bispos gastariam de seus tempos para promover o evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas uma coisas ESTUDEM MAIS as religioes dos outros tbm (mesmo que seja para criticar, pelo menos assim saberam o que estao falando). A Biblia NÃO é um livro cientifico - e sim um livro de fé. Ademais, Jesus mandou que amassemos uns aos outros, assim como ele nos amou (e acho que ele mandou amar a todos). Nosso Senhor deu-se na cruz por todos os homens, "para que todos tenham vida e vida em abundancia", tambem disse para pregar o evangelho e nao discutir o evangelho. Meus caros irmãos evangélicos ESTUDEM MAIS, o mundo nao é o mesmo do que a 50 anos atras, as poessoas estao cada vez mais inteligentes, portanto o rebanho precisa de gente inteligente no anuncio do evangelho. Ficar repetindo velhos chavões biblicos nao atrae mais ninguem. Jesus foi às piores pessoas de seu tempo para lhes anunciar, façamos o mesmo seguindo a ordem do Senhor. Por Jesus, que Deus Todo-Poderoso nos abençõe.
Se nós evangelicos fossemos tolerantes qnto a determinados assuntos eh pq naum vivemos o verdadeiro evangelho' pois a Biblia nos diz que devemos condenar as obras das trevas, pois se naum falarmos de Jesus, quem falara? Devemos sempre falar do verdadeiro amor de Deus, pois so vão entrar nos ceus, pessoas sinceras, e naum bastar ser crente, eh ser fiel a Deus, pois crente ate o diabo eh. Deus procura pessoas q o adorem em espirito e em verdade, naum podemos nos calar precisamos anunciar Jesus.
Deus existe sim e Ele esta disposto a nos perdoar e a nos salvar, basta kerermos abrir nosso coração e acreditar Nele, pois Ele vive, isso eh incontestavel, pois so o fato de existirmos, confirma o grande milagre de sua criação'